A economia angolana apresenta um paradoxo que merece reflexão aprofundada. Por um lado, assistimos a uma trajetória de consolidação fiscal e queda sustentada da inflação; por outro, persiste uma tensão estrutural entre a expansão dos gastos públicos — frequentemente conduzida por mecanismos discricionários — e o esforço do Banco Nacional de Angola (BNA) para ancorar as expectativas inflacionárias. Esta contradição revela a fragilidade da coordenação entre as políticas fiscal e monetária, um desafio crítico para a estabilização macroeconómica do país.
O Sucesso Monetário e a Sombra Fiscal
O BNA tem merecido crédito pela condução da política monetária. Dados recentes indicam que a inflação homóloga caiu para 11,58% em Abril de 2026, o nível mais baixo em 34 meses, levando o Comité de Política Monetária a rever em baixa a projecção para 11,5% no final do ano . Esta trajetória descendente, que viu a inflação anual recuar de 27,5% em Dezembro de 2024 para 15,7% em Dezembro de 2025, tem sido suportada por uma política de juros prudente e pela estabilidade cambial .
No entanto, este sucesso monetário contrasta com a realidade fiscal. O governo do Presidente João Lourenço, através do mecanismo de contratação simplificada por decreto presidencial, autorizou gastos públicos estimados em USD 61,5 mil milhões entre 2017 e 2026 . Embora parte deste montante possa ser justificada por "financiamento externo" ou situações de urgência, a falta de transparência e de escrutínio parlamentar coloca em causa a eficiência e o retorno social destes investimentos .
O Paradoxo da Coordenação
O paradoxo central reside na seguinte contradição: enquanto o BNA aumenta a taxa de juro de referência (atualmente em 17%) para conter a procura e controlar a inflação, o governo central injecta liquidez na economia através de gastos discricionários avultados . Esta injecção de recursos, especialmente quando dirigida a projectos de baixo multiplicador ou afectada por ineficiências, tem o potencial de neutralizar o efeito restritivo da política monetária.
Este é um exemplo clássico de má coordenação entre políticas. A literatura económica e as recomendações do FMI salientam a necessidade de alinhar as operações de tesouraria com a estratégia do banco central, particularmente no que toca à emissão de dívida de curto prazo que pode absorver liquidez bancária e distorcer o sinal da taxa de juro . Se o ministério das finanças emite títulos a taxas atractivas para financiar o défice, está, na prática, a competir com o BNA na gestão da liquidez, criando confusão no mercado monetário.
A Disciplina Fiscal como Pilar da Estabilidade
O FMI tem sublinhado que Angola precisa de uma consolidação fiscal sustentável. O Orçamento Geral do Estado para 2026 prevê uma redução da despesa primária de 2,9 pontos percentuais do PIB, um movimento positivo . Contudo, a eficácia desta consolidação é posta em causa pelo recurso sistemático a ajustes directos. A aprovação de despesas por decreto, frequentemente sem concurso público, não só distorce a alocação de recursos como também mina a confiança dos investidores, aumentando o chamado "prémio de soberania" que Angola paga para se financiar nos mercados internacionais .
O Governo justifica a estratégia de substituição de dívida colateralizada por petróleo por dívida de mercado como uma forma de recuperar soberania sobre os recursos . Porém, esta soberania financeira exige uma contrapartida interna: a capacidade de gerir o orçamento com transparência e eficácia. O que observamos, infelizmente, é que a "tinta da caneta do Presidente" continua a ser a principal ferramenta de alocação de recursos, criando uma desconexão entre os objectivos de desenvolvimento e a realidade orçamental .
Conclusão: O Caminho para a Coordenação
A estabilização da economia angolana exige mais do que uma política monetária restritiva. Requer uma coordenação genuína entre o Ministério das Finanças e o BNA, onde a política fiscal se comprometa com a disciplina orçamental e a transparência na execução da despesa. Se o BNA aperta o crédito enquanto o governo expande os gastos por decreto, a economia fica num impasse: as famílias e empresas sentem o aperto do crédito, mas a procura agregada mantém-se pressionada pelos gastos públicos, perpetuando o ciclo inflacionário.
Para romper este paradoxo, Angola precisa de reformas que vão além da técnica económica. A institucionalização do processo orçamental, o reforço do controlo parlamentar e a eliminação dos ajustes directos são passos essenciais para garantir que a política fiscal não apenas não contradiz, mas reforça os objectivos de estabilidade traçados pelo Banco Nacional de Angola. A coordenação frágil entre as duas políticas é, no fundo, o reflexo de uma fragilidade institucional mais profunda, que só a boa governação poderá curar.